sexta-feira, 15 de maio de 2026

APOIO E SOLIDARIEDADE À ANTROPÓLOGA SHEILA BRASILIERO

MOITARÁ/UnB adere à nota pública em apoio à antropóloga Sheila Brasileiro e convoca subscrições de entidades e movimentos sociais


por Cláudia Cavalcante


O Grupo de Pesquisa em Direitos Étnicos da Faculdade de Direito da Universidade de Brasilia (MOITARÁ-UnB), vinculado Universidade de Brasília (UnB), aderiu à “Nota Pública de Apoio e Solidariedade à Antropóloga Sheila Brasileiro e de Repúdio à sua Criminalização”, documento construído coletivamente por grupos de pesquisa, coletivos acadêmicos, instituições e movimentos sociais de diferentes regiões do país. 

A mobilização ocorre após a realização de mandado de busca e apreensão na residência da antropóloga Sheila Brasileiro, profissional vinculada ao Ministério Público Federal (MPF), no contexto da denominada “Operação Sombra da Mata”, conduzida pela Polícia Federal em 14 de maio de 2026.

Segundo as informações que motivaram a elaboração da nota pública, a medida policial teria sido fundamentada em alegações de envolvimento da antropóloga na organização de processos de retomada territorial. Para os grupos e instituições signatárias, esse enquadramento representa uma tentativa de criminalização da atuação antropológica e do trabalho técnico desenvolvido junto aos povos indígenas e comunidades tradicionais. 

A nota ressalta que a atuação de antropólogos e antropólogas em processos relacionados
a conflitos territoriais integra funções legítimas de pesquisa, produção de conhecimento técnico-científico e assessoramento institucional, especialmente no âmbito do Ministério Público Federal, cuja missão constitucional inclui a defesa de direitos coletivos e territoriais. Nesse sentido, a preocupação central das entidades signatárias é que a investigação produza efeitos intimidatórios sobre pesquisadores, servidores públicos, peritos e profissionais comprometidos com a garantia de direitos dos povos tradicionais.

Reconhecida nacionalmente por sua atuação junto aos povos indígenas e comunidades tradicionais, Sheila Brasileiro possui trajetória consolidada na defesa de direitos coletivos, na produção de conhecimento técnico-científico e na mediação qualificada de conflitos territoriais. Para o MOITARÁ/UnB, as acusações que buscam associar o exercício profissional da antropologia à organização de retomadas territoriais representam grave ameaça às garantias democráticas, à liberdade de pesquisa e à atuação técnica de profissionais comprometidos com os direitos humanos.

Em consonância com sua trajetória de pesquisa, extensão e atuação interdisciplinar voltada aos direitos étnicos e indígenas, o grupo destaca que a criminalização de antropólogas e antropólogos atinge não apenas uma profissional, mas também o conjunto de práticas científicas e institucionais vinculadas à efetivação dos direitos assegurados pela Constituição Federal de 1988. 

O MOITARÁ/UnB ressalta ainda que a atuação antropológica desenvolvida no âmbito de instituições públicas, como o Ministério Público Federal, possui fundamento ético, científico e constitucional, sendo essencial para a proteção dos direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais.



Defesa da liberdade acadêmica e dos direitos coletivos

A nota pública reafirma solidariedade irrestrita à antropóloga Sheila Brasileiro, reconhece sua trajetória profissional e repudia iniciativas que possam intimidar ou criminalizar o exercício legítimo da antropologia. 

O documento também alerta para os riscos institucionais decorrentes de ações que fragilizam o trabalho técnico-científico de profissionais vinculados à defesa de direitos coletivos, especialmente em contextos marcados por conflitos territoriais e violações históricas contra povos indígenas e comunidades tradicionais. 

Para o MOITARÁ/UnB, a defesa da liberdade acadêmica, da pesquisa científica e da atuação técnica qualificada constitui elemento indispensável para a preservação do Estado Democrático de Direito e para a efetivação dos direitos constitucionais dos povos e comunidades tradicionais.



Como aderir à nota pública

Grupos de pesquisa, instituições acadêmicas, coletivos, organizações da sociedade civil e movimentos sociais interessados em subscrever a nota pública podem realizar adesão até às 17h do dia 15 de junho de 2026.

As subscrições estão sendo recebidas por meio do formulário eletrônico: https://forms.gle/Ra1ndACxBVQhu9r3A

A expectativa dos organizadores é ampliar o apoio institucional em defesa da antropologia, da liberdade de pesquisa e da proteção dos direitos coletivos dos povos indígenas e comunidades tradicionais.




Grupo Moitará
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Siga-nos no nstagran: @grupo_moitara_unb 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Moitará lamenta perda da pesquisadora Graciela Chamorro


Etnomusicóloga e historiadora, Chamarro dedicou sua trajetória acadêmica, política e  humana aos povos guarani e kaiowá. 


O Grupo de Pesquisa em Direitos Étinicos, da Faculdade de Direito, da Universidade de Brasília (Moitará UnB) lamenta profundamente o falecimento da Graciela Chamorro, etnomusicóloga, historiadora e referência incontornável nos estudos guarani e kaiowá, após cerca de 20 anos de luta contra um câncer.

Nascida em Concepción, no Paraguai, viveu no Brasil desde 1977 e dedicou sua trajetória acadêmica, política e humana aos povos guarani e kaiowá, mantendo sempre uma postura ética firme de apoio, escuta e posicionamento ao lado desses povos diante das violências históricas e contemporâneas que enfrentam.

Com formação em Música, Teologia, História e Linguagem, e pós-doutorado na Universidade de Münster, foi professora em diversas instituições e, desde 2005, atuava como professora de História Indígena na Universidade Federal da Grande Dourados. Sua produção articula história, língua, religião e música, com forte crítica ao colonialismo cristão e diálogo com a teologia feminista e intercultural.

Entre suas obras fundamentais estão Kurusu Ñe'ẽngatu ou Palavras que a História Não Poderia Esquecer e A Espiritualidade Guarani: uma teologia guarani, livros que marcaram gerações de pesquisadores, educadores e lideranças indígenas.

Outro legado central é o Dicionário Kaiowá-Português, construído ao longo de mais de duas décadas em colaboração entre pesquisadores indígenas e não indígenas. A obra reúne mais de 6.000 verbetes com notas culturais e linguísticas e constitui um importante repositório da língua, da memória e da visão de mundo do povo Kaiowá, voltado especialmente ao uso educativo e à transmissão de saberes entre gerações.

Graciela Chamorro deixa um legado profundo de rigor intelectual, coragem política e compromisso afetivo com os povos indígenas. Sua ausência é irreparável, mas sua obra segue viva nas lutas, nas escolas e nas vozes guarani e kaiowá que ela ajudou a fortalecer.

Nossa solidariedade aos familiares, amigas, amigos, colegas e aos povos com quem caminhou.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Convocatória aberta para o Programa de Bolsas para Povos Indígenas 2026 da ONU

Iniciativa das Nações Unidas oferece formação internacional em Genebra e fortalece a atuação de lideranças indígenas nos mecanismos globais de direitos humanos

Foto: Divulgação




Estão abertas, até 15 de outubro de 2025, as inscrições para o Programa de Bolsas para Povos Indígenas 2026, promovido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH/ONU).

A iniciativa busca fortalecer a presença e o protagonismo indígena nos espaços e mecanismos internacionais voltados à promoção e à proteção dos direitos humanos, por meio de uma formação intensiva em Genebra, Suíça.

A edição de 2026 ocorrerá entre junho e julho, reunindo lideranças indígenas de diferentes regiões do mundo. Durante o programa, as pessoas selecionadas terão a oportunidade de conhecer de perto o funcionamento do sistema das Nações Unidas, participar de oficinas práticas e aprofundar estratégias de incidência política, diplomática e comunitária em defesa dos direitos coletivos dos povos indígenas.

A bolsa cobre passagens aéreas, hospedagem e diárias, e o curso será oferecido em inglês, espanhol e francês. As atividades são destinadas a pessoas indígenas com atuação comprovada em suas comunidades, organizações ou movimentos de defesa dos direitos humanos.


Quem pode participar

Podem se candidatar pessoas que atendam aos critérios abaixo, conforme o edital oficial da ONU:
1. Ser indígena – candidaturas de pessoas não indígenas não serão consideradas.
2. Ser apoiado(a) e indicado(a) por sua comunidade ou organização indígena, preferencialmente com representatividade e base consistente.
3. Ter bom domínio da língua em que o programa será ministrado (inglês, espanhol ou francês).
4. Comprometer-se a compartilhar os conhecimentos adquiridos e a treinar outras pessoas indígenas ao retornar à comunidade ou organização.
5. Não há limite de idade – candidaturas de todas as faixas etárias são elegíveis.
6. Não é exigido diploma formal – a ausência de formação acadêmica não impede a participação.
7. São especialmente encorajadas candidaturas de mulheres indígenas, pessoas LGBTQI+ e pessoas com deficiência.


📅 Período: junho a julho de 2026
📍 Local: Genebra, Suíça
🗓️ Inscrições até: 15 de outubro de 2025



Sobre o programa

Criado em 1997, o Programa de Bolsas para Povos Indígenas é uma das principais iniciativas do ACNUDH para fortalecer a voz indígena no cenário internacional.

Ao longo dos anos, centenas de lideranças indígenas já participaram da formação e hoje atuam como representantes, articuladores e defensores dos direitos humanos de seus povos.

O programa é reconhecido por promover a troca de saberes, o diálogo intercultural e o fortalecimento de redes globais de defesa dos direitos coletivos — ampliando a presença indígena em fóruns decisivos da ONU e em espaços internacionais de direitos humanos.